
Sete anos após perder os dois únicos filhos e a nora, que estava grávida do primeiro neto, no rompimento da barragem de Brumadinho, a economista Helena Taliberti lança o livro Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, publicado pela Editora Ofício da Palavra. A obra será apresentada oficialmente durante a 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 25 de julho, às 11h30, na Casa Ofício.
No livro, Helena compartilha sua trajetória marcada pela dor, pelo amor e pela reconstrução da vida após uma das maiores tragédias socioambientais do país. A publicação reúne reflexões sobre o luto, a memória e a importância de preservar as histórias das vítimas, além de defender que desastres como o de Brumadinho jamais se repitam.
O lançamento contará com o painel “Semear futuros, cultivar a vida”, que reunirá Helena Taliberti, a jornalista, escritora e roteirista Jéssica Moreira, autora da coluna Morte sem Tabu, da Folha de S.Paulo, e o jornalista e escritor Jamil Chade, especialista em direitos humanos e crises humanitárias. A mediação será da jornalista Aline Midlej, da GloboNews.
Em um dos trechos da obra, Helena descreve a intensidade da experiência do luto.
“Na perda há uma dor ácida que vem com a ruptura, com o vazio, com a falta de sentido, com os fragmentos em que a vida se torna, com o acordar todos os dias e redescobrir a perda. É um naufrágio diário, em que a primeira respiração da manhã traz de novo o peso da água barrenta aos pulmões. Mas, no amor, há uma paz doce e plena, como um farol que ilumina intensamente o caminho, revela a profundidade do vínculo e confere nitidez à presença deles na lembrança.”
Ao longo do livro, a autora amplia a discussão para além de sua história pessoal, estabelecendo um diálogo com pessoas que enfrentaram perdas traumáticas e transformando a obra em um manifesto pela preservação da memória das vítimas.
“O perder e o amar são faces da mesma moeda, e é nesse lugar que está a mais profunda experiência humana. No luto, são pêndulos e a prova mais real de que algo imenso, pleno e lindo existiu. Se dói com essa intensidade, é porque o que houve antes foi uma luz capaz de cegar o mundo. A dor é o eco de um amor que não encontrou mais o seu destino físico, mas que se recusa a silenciar”, escreve Helena.
A publicação reúne três prefácios assinados por profissionais que acompanharam, de diferentes formas, a trajetória da autora. A jornalista Cristina Serra destaca a delicadeza com que Helena reconstrói a história da família e de seus filhos. Já a jornalista Daniela Arbex, autora de Arrastados: Os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil, relata o impacto de conhecer de perto a dimensão da dor vivida pela escritora.
O terceiro prefácio é assinado pela psicóloga Maria Helena Pereira Franco, que acompanha o processo de luto de Helena. No texto, ela reflete sobre o significado de transformar uma história íntima em uma narrativa pública, capaz de dialogar com diferentes experiências e despertar novas interpretações.
O posfácio é de Vagner Diniz, marido de Helena, que exerceu a paternidade afetiva de Camila e Luiz desde que eles eram crianças. Para ele, a obra convida o leitor a refletir sobre aquilo que realmente importa e sobre os valores que dão sentido à vida.
Memória transformada em ação
Naturais de São Paulo, Camila e Luiz Taliberti visitavam Brumadinho com a família para conhecer o Instituto Inhotim quando foram surpreendidos pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019. Eles estavam hospedados na pousada destruída pela lama, juntamente com a esposa de Luiz, que estava grávida.
Após a tragédia, Helena Taliberti e Vagner Diniz, ao lado de amigos dos filhos, criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti (ICLT), organização dedicada à preservação da memória das 272 vítimas do desastre, à defesa da vida e à proteção do meio ambiente.
Desde então, o instituto desenvolve iniciativas voltadas à mobilização social e à cultura. Entre 2023 e 2025, promoveu a exposição Paisagens Mineradas, que reuniu obras de 12 artistas mulheres sobre os impactos da mineração e percorreu cidades como Belém, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto.
Anualmente, o ICLT também realiza a Mostra Cinema, Mineração e Meio Ambiente, com exibição de documentários, filmes de ficção e debates sobre os impactos humanos e ambientais da atividade minerária. Outro destaque é o Ato pela Memória, realizado todos os anos em 25 de janeiro, na Avenida Paulista, em São Paulo, reunindo manifestações culturais e educativas em homenagem às vítimas de Brumadinho.



